22 de novembro de 2010

The Seventh Continent (1989)



“O principio de uma história de violência”
The Seventh Continent marca o ínicio da cruzada de Michael Haneke no cinema de ficção, que já conta com 11 longas metragens. O filme narra a história de uma família austríaca que comete suicídio colectivo: o patriarca da família Georg, a esposa Anna e a filha do casal Eva.

O filme está dividido em três partes, correspondentes a um dia na vida da família ao longo dos últimos três anos de vida. As duas primeiras partes – 1987 e 1988 – mostram em detalhe a rotina dos personagens. Uma família da classe média, presa a uma rotina imposta pela sociedade moderna, na qual se sentem desconfortáveis. No inicio de cada sequência Anna lê, em voice-off, uma carta que escreveu aos pais de Georg a informar o sucesso do marido no trabalho. A terceira parte começa após a visita dos pais de Georg. Desta vez é o próprio que narra a carta aos pais a informar que ele e a família vão partir para a Austrália. Hanake mostra, numa rotina suícida eles a despedirem-se do trabalho, fecharem a conta no banco levando todo o dinheiro, comprarem ferramentas,  informarem a escola de Eva que ela não vai poder ir à escola porque está doente, a venderem o carro e a destruir a casa com todos os seus pretences.

Michael Haneke procura colocar em oposição a cultura clássica e a cultura pop do pós-guerra. A cultura clássica, principalmente a música, desempenha a função de salvadora marginal, ocasionalmente complementada por traços mais humanos da sociedade industrial. Durante uma espécie de preludio ao suicídio da família, George vende o carro da família e a filha Eva, deambula pelo ferro velho onde decorre a transacção. Um espaço que remete para a decadência da sociedade burguesa, onde eles vivem e de onde querem sair. A determinada altura, Eva começa a parar e a olhar fixamente para um barco que está a passar num porto costeiro (que pode ou não existir), uma música clássica aparece discretamente, mas de uma forma completamente perturbadora, por ser a primeira música não diagética no filme. “The Memory of an Angel”[1] é uma peça extraordináriamente comovente e conscientemente desarticulada.

Este é também o primeiro filme da “trilogia da glaciação”, onde Haneke explora as rotinas e a suas quebras devido a actos de extrema violencia, que ganham importância através do foco dado a cada gesto. Uma das cenas de maior brutalidade ocorre quando os personagens, no “ritual de suicídio”, decidem colocar todo o dinheiro que tinham pela sanita a baixo, num longo plano pormenor na sanita onde o foco é o acto para muitos impensável, de uma violência imensa para com as pessoas que trabalham e tem por objectivo ganhar dinheiro e não o deitar fora. Caso esta cena tivesse a duração de de 5/20 segundos a mensagem nunca chegaria, seria mais um passo no processo de auto-destruição. Michael Haneke procura um cinema reflexivo, onde o espectador é livre de tirar as suas próprias ilações[2], dando o tempo necessário para “saborear” cada plano e desfrutar de uma forma, que ele procura ser real, a violência.
“People don’t like to be confronted with reality. They like to be confronted with a consumable reality. Even the most brutal violence is shown in a way that you can consume it so that you are thrilled, not touched. I always try to find a way so that people are touched too”[3]




Amélia Sarmento (2100638)

[1] BERG, Alban, The Memory of an Angel, Concerto para Violino, 1935.
[2] “The Quality of a film lies in the fact that can be interpreted in multiple ways.”, Michael Haneke an Interview, 19 de Fevereiro de 2008, Viena (extras do filme Funny Games US), The Essential Michael Haneke box-set, Artificial Eye 2009
[3] Entrevista de Michael Haneke à revista Time Out London, Dave Calhoun